quinta-feira, 22 de maio de 2014

Travessia Serra Fina



Quando fiz a Travessia do Parnaso foi comentado sobre uma outra travessia a ser feita, mas que o grau de dificuldade era maior, por vários motivos, sendo a falta de água pelo caminho o mais preocupante, devido ao acréscimo de peso a ser transportado.
Isso foi o suficiente para a coisa não sair mais da minha mente, mas com a programação lotada foi sendo adiada até que no feriado de Pascoa/2014 não deu mais para segurar, agora tinha que sair.
Contratempo não faltou, desde  o dia que foi dado o start pelo grupo da Juliana de Curitiba, muita alteração, inclusive a venda da nossa tão preciosa van para nosso transporte, mas montanhista que por pouca coisa desiste, não pode nem ir para a trilha, melhor ficar em casa mesmo.
E assim foi, dois de bus, 4 de carro, logística dos infernos, mas posta em prática, logo cai por terra na emissão errada da conexão em São Paulo, solução? Antecipar em um dia a viagem, nem planejando iria dar certo como deu.
Eu e Chico Tessaro, chegamos em Passa Quatro  a tardinha de Quarta Feira dia 16/04 e fomos direto procurar uma pousada e um restaurante caseiro com aquela comidinha mineira, mas em dia de semana, mineiro não abre restaurante a noite, mas cachaçaria, há isso sim é uma coisa que mineiro sabe fazer, miles de marcas depois uma garrafa da melhor na mão e fomos a procura do que comer, e logo encontramos o melhor pastel de P.4 , onde a receptividade mineira nos permitiu tomar da nossa bebida enquanto vários e vários pasteis eram devorados, quem se preocuparia com Serra Fina no dia seguinte, afinal teríamos que esperar o Mario Firmino com o restante do pessoal, que haviam saído somente as 18:00 do mesmo dia 16.
Depois dos pasteis somente uma bela cama para descansar o cadáver até pelo menos 09:00 da manhã, opssssssss, quem bate na nossa porta as 05:00 da matina? Que cachaça ruim, pensei ter ouvido Mario falando, ô ressaca, curada instantaneamente com a visão de todo mundo aguardando de mochila pronta para subir a Serra.
Na mesma hora pensei “ ainda bem que vim de bus, o cara deve ter vindo a 200km/h para ter feito a viagem em 10 horas quase 1000 km, mas enfim, sacodir o corpo e tirar o álcool na trilha, não sem antes tomar aquele café colonial que o hotel serviria........., mas que? Nem pão tinha, ainda bem que Terezinha Tessaro como sempre não deixa ninguém passar fome, Tupperware lotado  fez a festa.
E lá vamos nós para mais uma logística dos infernos, eu e Mario até o inicio da trilha, deixar todas as mochilas, eu fico cuidando enquanto ele volta par pegar o pessoal, 12 km depois, a alegria de ter ido de carro só foi destroçada pela brutal recepção do proprietário do Refugio Serra Fina, o qual se dizia dono do acostamento da estrada, tendo sido necessário colocar as mochilas na estrada para calar  o sujeito de  arrogância sem comparação com a amabilidade local, isso colocou por terra a idéia de deixar o carro estacionado no refugio, foi necessário voltar 4 km para deixar na fazenda de um gentil mineiro, acreditem, essa distância toda era propriedade do Paulista, não era a toa a sua arrogância.
Com todo esse atraso, começamos a trilha às 12:30, mas fé em Deus e pé na trilha que ainda chegaríamos ao acampamento 01 ainda antes do anoitecer, logo em seguida chegamos na Toca do Lobo, ultimo ponto de abastecimento de água até o primeiro acampamento, negativo, fiquem sabendo que há outro ponto muito mais acima e com água cristalina, em um local próprio para acampamento, mas que somente a 2 horas de caminhada, não vale a pena para quem vai fazer a travessia a não ser que comece às 16:00.
Linda crista e para ser sincero para mim foi a única parte que a serra é realmente fina, no mais é muito capim, para fazer a felicidade de qualquer manada de elefantes africanos, bem que podiam criar  alguns para baixar um pouco. Ao chegar no local do primeiro acampamento era ainda muito cedo, resolvemos seguir adiante, pois conforme relato do montanhoso, eles também seguiram por terem alcançado muito rápido esse ponto e que haveria local para acampamento adiante.
Finalzinho da tarde, com o sol se pondo chegamos ao cume do Capim Amarelo, lindo entardecer, com o bônus de estarmos com a distância percorrida em um bom tempo, otimizando para os demais dias, qualquer atraso que houvesse, como tivemos que antecipar a viagem em 01 dia, não encontramos até então ninguém na trilha, porém a nossa coordenadora já vinha observando pontos de bastão pelo caminho, muito provavelmente alguém estava a nossa frente.
Bela caminhada, avançando cumes e mais cumes, que ao se olhar para o caminho percorrido era quase inacreditável o quanto estávamos andando, porém com um agravante, a água que no inicio havia um bica já no alto, nesse trecho não tinha nem para passarinho beber, e como o lobby foi forte, não abastecemos ultimo ponto, porém logo ao passar um pequeno brejo no cume de um morro, lá mais abaixo dava para avistar um cachoeira, que caia proveniente de uma represa natural na cela do morro Pedra da Mina, de longe dava para avistar 3 montanhistas que já estava lá, muito provavelmente fazendo o mesmo que nós faríamos depois de 1 hora de caminhada, um bom almoço na beira de riacho de agua tão geladas que pensei em levar cerveja na próxima vez.
A minha felicidade foi tanta, que esqueci as lições  sobre alimentar-se no meio da caminhada e fiz logo dois miojos al suco de sopa de pacote, descanso básico, deitado olhando as nuvens vi uma movimentação  de ventos de sentidos convergentes se encontrando bem acima de onde estávamos, calculei que mais a frente íamos enfrentar uma boa chuva. Como resultado da insanidade de tanta comilança, não conseguia dar dois passos para subir o morro que faltava o ar, é claro o povo foi todo na frente, ficando Terezinha e Fernando em solidariedade ao montanhista com principio de indigestão, para piorar ainda peguei um caminho de rato que me levou para longe da trilha original, ao retornar acabei descobrindo que o capim tem suas surpresinhas, buracos gigantes que me fizeram cair de ponta cabeça, de cargueira e tudo, ficando igual barata balançando as perninhas para cima, mas ainda não tinha ficado bem mau, aquela dita convergência resultou em uma chuva com vento bem na subida da Pedra da Mina, frio que aumento ainda mais no cume, pena estar tudo nublado, sem vista alguma, fotos rápidas e perna na trilha para aquecer o corpo já quase congelado, descer até o vale do Ruah, local mais apropriado para montar a barraca e já ponto de partida para o ultimo dia de caminhada. Mario que já havia falado com o trio que ia na frente, foi guiando a descida.
Murfhy é um cara sacana mesmo, chegando no vale, ao olhar para o cume da Pedra da Mina, o tempo limpinho, se não fosse muito, voltaria para acampar lá em cima, desejo compartilhado com o Evaldo, amanhecer no vale não daria um nascer do sol com visual, mas assim é e montamos acampamento próximo aos três montanhistas que estavam seguindo adiantados, um deles já fazia essa travessia a 30 anos, no tempo que não havia trilha ainda e com consciência ecológica nos apresentou um tubo de PVC contendo cal e as fezes, que só seriam descarregadas em fossa no fim da travessia, conceito válido devido ao grande numero de pessoas nos dias de feriados, onde muitas nem ao menos saem da trilha para realizar suas necessidades fisiológicas, tornando o caminho um campo minado.
Após um gole da Crepúsculo, uma bate papo animado com os experientes montanhistas, regado ao tradicional miojo ao creme de leite da Terezinha, só restava uma boa noite de sono, não fosse o solo super duro, formado pela erosão do material das partes altas e matéria orgânica, acumulados por milênios, serviu de pesquisa cronológica em perfuração  para retirada do material, tendo sido encontrado sementes e pólen de vários séculos atrás.
Acordei com um objetivo claro, não dormir mais nenhuma noite na travessia, proposta feita, botamos o pé na trilha....... qual delas? Milhares de caminhos, nesse momento o trek log dos nossos amigos do Montanhoso foram de suma importância, poupando tempo com perdidas, logo estaríamos ao lado de riacho cristalino, de aguas cristalinas e gélidas, margeando o mesmo até subir o primeiro monte de uma sequencia que nos levaria ao cume dos Três Estados.
A cada morro visualizado a frente uma sensação de que teríamos um longo dia, porém pouco a pouco, ao olharmos para trás, a satisfação de ver que o caminho percorrido era insanamente longo, isso nos dava incentivo para seguir forte no passo.
Sem conhecer visualmente o caminho e os morros, as especulações de qual direção seria a finalização da trilha, nos levou ao inevitável, todos apostamos que seria algo descendo, mas não...era subindo, e ô subidinha puxada a do cume dos Três Estados, ainda mais com o Mario Firmino incentivando a subir cada vez mais rápido, consegui, mas com certeza não dava para comemorar ainda a chegada na armação de ferro que determina a divisa de Minas, Rio e São Paulo, sem folego, o chão me parecia mais um colchão de molas do que pedra.
Mario sem perda de tempo  tratou de fazer uma polenta com uma vista deslumbrante, logo em seguida o grupo todo estava reunido, nas fotos e na alimentação, pretendendo ser a ultima antes do final, que ainda não sabíamos para que lado estava, mas que pelo trak log indicava desnível a frente, ótima notícia depois de tanto morro e capim, há o capim, por uns bons anos vou lembrar desse capim, dica boa é, mesmo com calor, usem calça e manga comprida.
Fotos tiradas, corpo tratado, seguimos o caminho, que ao descer o cume, nos deu a visão de um grupo subindo, fazendo a trilha ao contrário, quem em sã consciência faria a trilha ao contrário, já que todo bambu, capim, galhos, quase tudo estava virado contra.
Resposta imediata, o grupo que achei que estava vindo pelo menos 1 dia atrás de nós, o da Juliana Hoy, felicidade de encontrar rosto conhecido na trilha e preocupação por estarem naquele horário, muito distante do vale do Ruah, poderia haver problema se pegassem a noite naquele capim de mais de 2 mts de altura, cheio de erradas, dias depois Juliana comentou que acamparam antes, experiência é tudo nessa hora.
Nesse momento é que ficamos sabendo qual a direção do final da trilha, o qual fomos informados que não seria possível terminar ainda no mesmo dia, mas para quem fez o que já havíamos feito, não acreditava nisso, estava certo que sairíamos na fazenda do Pierre até as 18:00 e para botar incentivo na mente, apostei o pagamento da pizza para quem chegasse até esse horário.
Não por isso, mas que a pernada foi cada vez mais acelerada, mesmo com a musculatura cada vez mais fadigada, com pouca água e com mais algumas perdidas, as quais mais pareciam trilhas do que perdidas e a trilha mais parecia um caminho de rato, santo GPS, ajudou muito a economizar o tempo.
Primeiro sinal de civilização, cerca de arame, “cuidado com o tétano Mario” , a triha ficando com cara de final, vegetação do vale ficando cada vez mais próxima e finalmente entendi o recado dado por uma integrante do grupo da Juliana, “quando chegar em uma estrada, pega a esquerda”, era o final da trilha propriamente dita, e começo de um estrada interminável, isso dito pelos meus músculos, já bem acabados, horário chegando próximo das 18:00, pizza mixando e quando penso que não, a fazenda do Pierre às 17:58, isso foi muito gratificante, mas cadê o Pierre com a abanda de música saudando os heróis? Nada, fazenda poderia ser considerada desabitada, pelo menos até aquele dia, pois o gramado aparado denotava a proximidade dos proprietários  para o feriado, afinal ainda era sábado a noite, andamos tanto que desde a Toca do Lobo, no total foram 53 horas entre caminhada e acampamento,  um tempo que considero excelente haja visto que normalmente é realizado em 4 dias, vale lembrar que as paradas para fotografia foram  muitas, portanto foi uma trilha que a paisagem fantástica foi apreciada em todos os detalhes, almoço farto ( me dói só de lembrar) com direito a uma pequena pausa de descanso.
Bom, e agora? Chegamos um dia antes do que havia programado com o resgate e o celular até o momento eu não tinha idéia onde havia colocado no meio da bagunça que era minha mochila, mas tchrammmm, estava bem ali, na cabeça da mochila, cara organizado é outra coisa, liguei e nada de sinal.....mais um pouquinho e deu, consegui falar com sinal entrecortado que havíamos chegado antes e se poderíamos ser resgatados dali um hora mais ou menos, com a resposta positiva, nos colocamos em marcha novamente, eu mesmo quando vai chegando numa finaleira dessas, me dá uma coisa nos pés que me deixa sem noção de dor, andei voando pela estrada escorregadia e cheia de pedregulhos, tormento para o Mario, mais uma prova de resistência para o Fernando e a Terezinha, Evaldo na dianteira como sempre, puxando a fila, eu o Chico juntos, ao longe dava para escutar o transito na estrada, depois de meia hora de descida encontramos uma bica, onde foi possível matar a sede Arábica que estava passando e também dar um tempo para esperar Terezinha, Fernando e Mário.
Na chegada ao asfalto a constatação que o veiculo, não era o esperado e que poderia levar somente 4 e as mochilas dos mesmos, solução em conjunto era que dois ficassem no aguardo do retorno do Carro do Mario que ainda seria resgatado no inicio da trilha, Chico e Evaldo ficaram aguardando, enquanto Mário que estava com os pé visivelmente machucados pela longa trilha e pelo final na estrada, iria aguardar no hotel junto Terezinha e Fernando, no meio do caminho o lobby do Mario fez com que um outro veiculo fosse contratado agilizando a logística, sendo que meu retorno com o carro do Mário foi quase ao mesmo tempo que a chegada do Chico e Evaldo no segundo veiculo do resgate.
Todo mundo feliz, zarpei imediatamente para a rodoviária para tentar pegar o primeiro Bus para São Paulo, porém a empresa só tinha o primeiro horário para 01:00, decidi ficar e esperar, pois sempre tem surpresas, Chico voltou ao hotel para tomar banho, jantar e retornou para esperar.
Triste foi a situação dos demais passageiros que tiveram que viajar ao lado de um cara que tomou o ultimo banho a 3 dias, mas isso é uma outra história, chegada em São Paulo lava a alma e outra cositas más, bom café, boa sala de espera e um bus executivo, tudo o que precisava para ser feliz, agora só passar o tempo descansando até Floripa, com chegada prevista para a noite.
Uma verdade, quando tudo parece dar errado, e acaba tudo sincronizado, é por que o universo conspirou a  favor, Graças a Deus uma travessia considerada a mais difícil do País acabou sendo a aventura Hard mais soft possível.  Todos os integrantes estão de parabéns, mas em especial para Terezinha Tessaro, a verdadeira  guerreira e Fernando Faria, que mesmo estando super cansado, não arregou nenhuma vez e com seus bastões de caminhada, cruzou a serra, meu agradecimento especial ao Evaldo Baez e Chico Tessaro pela parceria incondicional e ao Mário Firmino pela sua presença e logística rodoviária que nos permitiu  iniciar a trilha antes do previsto. Não posso deixar de agradecer ao irmãos Amaro, Cristiano e Atla, pelo trak log  e relato fidedigno que possibilitou o avanço sem erros e em tempo minimizado.  

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