Quando fiz a Travessia do Parnaso foi comentado sobre uma
outra travessia a ser feita, mas que o grau de dificuldade era maior, por
vários motivos, sendo a falta de água pelo caminho o mais preocupante, devido
ao acréscimo de peso a ser transportado.
Isso foi o suficiente para a coisa não sair mais da minha
mente, mas com a programação lotada foi sendo adiada até que no feriado de
Pascoa/2014 não deu mais para segurar, agora tinha que sair.
Contratempo não faltou, desde o dia que foi dado o start pelo grupo da
Juliana de Curitiba, muita alteração, inclusive a venda da nossa tão preciosa
van para nosso transporte, mas montanhista que por pouca coisa desiste, não
pode nem ir para a trilha, melhor ficar em casa mesmo.
E assim foi, dois de bus, 4 de carro, logística dos
infernos, mas posta em prática, logo cai por terra na emissão errada da conexão
em São Paulo, solução? Antecipar em um dia a viagem, nem planejando iria dar
certo como deu.
Eu e Chico Tessaro, chegamos em Passa Quatro a tardinha de Quarta Feira dia 16/04 e fomos
direto procurar uma pousada e um restaurante caseiro com aquela comidinha
mineira, mas em dia de semana, mineiro não abre restaurante a noite, mas
cachaçaria, há isso sim é uma coisa que mineiro sabe fazer, miles de marcas
depois uma garrafa da melhor na mão e fomos a procura do que comer, e logo encontramos
o melhor pastel de P.4 , onde a receptividade mineira nos permitiu tomar da
nossa bebida enquanto vários e vários pasteis eram devorados, quem se
preocuparia com Serra Fina no dia seguinte, afinal teríamos que esperar o Mario
Firmino com o restante do pessoal, que haviam saído somente as 18:00 do mesmo
dia 16.
Depois dos pasteis somente uma bela cama para descansar o
cadáver até pelo menos 09:00 da manhã, opssssssss, quem bate na nossa porta as
05:00 da matina? Que cachaça ruim, pensei ter ouvido Mario falando, ô ressaca,
curada instantaneamente com a visão de todo mundo aguardando de mochila pronta
para subir a Serra.
Na mesma hora pensei “ ainda bem que vim de bus, o cara deve
ter vindo a 200km/h para ter feito a viagem em 10 horas quase 1000 km, mas
enfim, sacodir o corpo e tirar o álcool na trilha, não sem antes tomar aquele
café colonial que o hotel serviria........., mas que? Nem pão tinha, ainda bem
que Terezinha Tessaro como sempre não deixa ninguém passar fome, Tupperware
lotado fez a festa.
E lá vamos nós para mais uma logística dos infernos, eu e
Mario até o inicio da trilha, deixar todas as mochilas, eu fico cuidando
enquanto ele volta par pegar o pessoal, 12 km depois, a alegria de ter ido de
carro só foi destroçada pela brutal recepção do proprietário do Refugio Serra
Fina, o qual se dizia dono do acostamento da estrada, tendo sido necessário
colocar as mochilas na estrada para calar
o sujeito de arrogância sem
comparação com a amabilidade local, isso colocou por terra a idéia de deixar o
carro estacionado no refugio, foi necessário voltar 4 km para deixar na fazenda
de um gentil mineiro, acreditem, essa distância toda era propriedade do
Paulista, não era a toa a sua arrogância.
Com todo esse atraso, começamos a trilha às 12:30, mas fé em
Deus e pé na trilha que ainda chegaríamos ao acampamento 01 ainda antes do
anoitecer, logo em seguida chegamos na Toca do Lobo, ultimo ponto de
abastecimento de água até o primeiro acampamento, negativo, fiquem sabendo que
há outro ponto muito mais acima e com água cristalina, em um local próprio para
acampamento, mas que somente a 2 horas de caminhada, não vale a pena para quem
vai fazer a travessia a não ser que comece às 16:00.
Linda crista e para ser sincero para mim foi a única parte
que a serra é realmente fina, no mais é muito capim, para fazer a felicidade de
qualquer manada de elefantes africanos, bem que podiam criar alguns para baixar um pouco. Ao chegar no
local do primeiro acampamento era ainda muito cedo, resolvemos seguir adiante,
pois conforme relato do montanhoso, eles também seguiram por terem alcançado
muito rápido esse ponto e que haveria local para acampamento adiante.
Finalzinho da tarde, com o sol se pondo chegamos ao cume do
Capim Amarelo, lindo entardecer, com o bônus de estarmos com a distância
percorrida em um bom tempo, otimizando para os demais dias, qualquer atraso que
houvesse, como tivemos que antecipar a viagem em 01 dia, não encontramos até
então ninguém na trilha, porém a nossa coordenadora já vinha observando pontos
de bastão pelo caminho, muito provavelmente alguém estava a nossa frente.
Bela caminhada, avançando cumes e mais cumes, que ao se
olhar para o caminho percorrido era quase inacreditável o quanto estávamos
andando, porém com um agravante, a água que no inicio havia um bica já no alto,
nesse trecho não tinha nem para passarinho beber, e como o lobby foi forte, não
abastecemos ultimo ponto, porém logo ao passar um pequeno brejo no cume de um
morro, lá mais abaixo dava para avistar um cachoeira, que caia proveniente de
uma represa natural na cela do morro Pedra da Mina, de longe dava para avistar
3 montanhistas que já estava lá, muito provavelmente fazendo o mesmo que nós
faríamos depois de 1 hora de caminhada, um bom almoço na beira de riacho de
agua tão geladas que pensei em levar cerveja na próxima vez.
A minha felicidade foi tanta, que esqueci as lições sobre alimentar-se no meio da caminhada e fiz
logo dois miojos al suco de sopa de pacote, descanso básico, deitado olhando as
nuvens vi uma movimentação de ventos de
sentidos convergentes se encontrando bem acima de onde estávamos, calculei que
mais a frente íamos enfrentar uma boa chuva. Como resultado da insanidade de
tanta comilança, não conseguia dar dois passos para subir o morro que faltava o
ar, é claro o povo foi todo na frente, ficando Terezinha e Fernando em
solidariedade ao montanhista com principio de indigestão, para piorar ainda
peguei um caminho de rato que me levou para longe da trilha original, ao
retornar acabei descobrindo que o capim tem suas surpresinhas, buracos gigantes
que me fizeram cair de ponta cabeça, de cargueira e tudo, ficando igual barata
balançando as perninhas para cima, mas ainda não tinha ficado bem mau, aquela
dita convergência resultou em uma chuva com vento bem na subida da Pedra da
Mina, frio que aumento ainda mais no cume, pena estar tudo nublado, sem vista
alguma, fotos rápidas e perna na trilha para aquecer o corpo já quase
congelado, descer até o vale do Ruah, local mais apropriado para montar a
barraca e já ponto de partida para o ultimo dia de caminhada. Mario que já
havia falado com o trio que ia na frente, foi guiando a descida.
Murfhy é um cara sacana mesmo, chegando no vale, ao olhar
para o cume da Pedra da Mina, o tempo limpinho, se não fosse muito, voltaria
para acampar lá em cima, desejo compartilhado com o Evaldo, amanhecer no vale
não daria um nascer do sol com visual, mas assim é e montamos acampamento próximo
aos três montanhistas que estavam seguindo adiantados, um deles já fazia essa
travessia a 30 anos, no tempo que não havia trilha ainda e com consciência ecológica
nos apresentou um tubo de PVC contendo cal e as fezes, que só seriam
descarregadas em fossa no fim da travessia, conceito válido devido ao grande
numero de pessoas nos dias de feriados, onde muitas nem ao menos saem da trilha
para realizar suas necessidades fisiológicas, tornando o caminho um campo
minado.
Após um gole da Crepúsculo, uma bate papo animado com os experientes
montanhistas, regado ao tradicional miojo ao creme de leite da Terezinha, só
restava uma boa noite de sono, não fosse o solo super duro, formado pela erosão
do material das partes altas e matéria orgânica, acumulados por milênios,
serviu de pesquisa cronológica em perfuração
para retirada do material, tendo sido encontrado sementes e pólen de
vários séculos atrás.
Acordei com um objetivo claro, não dormir mais nenhuma noite
na travessia, proposta feita, botamos o pé na trilha....... qual delas? Milhares
de caminhos, nesse momento o trek log dos nossos amigos do Montanhoso foram de
suma importância, poupando tempo com perdidas, logo estaríamos ao lado de
riacho cristalino, de aguas cristalinas e gélidas, margeando o mesmo até subir
o primeiro monte de uma sequencia que nos levaria ao cume dos Três Estados.
A cada morro visualizado a frente uma sensação de que teríamos
um longo dia, porém pouco a pouco, ao olharmos para trás, a satisfação de ver
que o caminho percorrido era insanamente longo, isso nos dava incentivo para
seguir forte no passo.
Sem conhecer visualmente o caminho e os morros, as
especulações de qual direção seria a finalização da trilha, nos levou ao inevitável,
todos apostamos que seria algo descendo, mas não...era subindo, e ô subidinha
puxada a do cume dos Três Estados, ainda mais com o Mario Firmino incentivando
a subir cada vez mais rápido, consegui, mas com certeza não dava para comemorar
ainda a chegada na armação de ferro que determina a divisa de Minas, Rio e São
Paulo, sem folego, o chão me parecia mais um colchão de molas do que pedra.
Mario sem perda de tempo tratou de fazer uma polenta com uma vista
deslumbrante, logo em seguida o grupo todo estava reunido, nas fotos e na
alimentação, pretendendo ser a ultima antes do final, que ainda não sabíamos para
que lado estava, mas que pelo trak log indicava desnível a frente, ótima
notícia depois de tanto morro e capim, há o capim, por uns bons anos vou
lembrar desse capim, dica boa é, mesmo com calor, usem calça e manga comprida.
Fotos tiradas, corpo tratado, seguimos o caminho, que ao
descer o cume, nos deu a visão de um grupo subindo, fazendo a trilha ao contrário,
quem em sã consciência faria a trilha ao contrário, já que todo bambu, capim,
galhos, quase tudo estava virado contra.
Resposta imediata, o grupo que achei que estava vindo pelo
menos 1 dia atrás de nós, o da Juliana Hoy, felicidade de encontrar rosto conhecido
na trilha e preocupação por estarem naquele horário, muito distante do vale do
Ruah, poderia haver problema se pegassem a noite naquele capim de mais de 2 mts
de altura, cheio de erradas, dias depois Juliana comentou que acamparam antes,
experiência é tudo nessa hora.
Nesse momento é que ficamos sabendo qual a direção do final
da trilha, o qual fomos informados que não seria possível terminar ainda no
mesmo dia, mas para quem fez o que já havíamos feito, não acreditava nisso, estava
certo que sairíamos na fazenda do Pierre até as 18:00 e para botar incentivo na
mente, apostei o pagamento da pizza para quem chegasse até esse horário.
Não por isso, mas que a pernada foi cada vez mais acelerada,
mesmo com a musculatura cada vez mais fadigada, com pouca água e com mais
algumas perdidas, as quais mais pareciam trilhas do que perdidas e a trilha
mais parecia um caminho de rato, santo GPS, ajudou muito a economizar o tempo.
Primeiro sinal de civilização, cerca de arame, “cuidado com
o tétano Mario” , a triha ficando com cara de final, vegetação do vale ficando
cada vez mais próxima e finalmente entendi o recado dado por uma integrante do
grupo da Juliana, “quando chegar em uma estrada, pega a esquerda”, era o final da
trilha propriamente dita, e começo de um estrada interminável, isso dito pelos
meus músculos, já bem acabados, horário chegando próximo das 18:00, pizza
mixando e quando penso que não, a fazenda do Pierre às 17:58, isso foi muito gratificante,
mas cadê o Pierre com a abanda de música saudando os heróis? Nada, fazenda
poderia ser considerada desabitada, pelo menos até aquele dia, pois o gramado
aparado denotava a proximidade dos proprietários para o feriado, afinal ainda era sábado a
noite, andamos tanto que desde a Toca do Lobo, no total foram 53 horas entre
caminhada e acampamento, um tempo que
considero excelente haja visto que normalmente é realizado em 4 dias, vale
lembrar que as paradas para fotografia foram
muitas, portanto foi uma trilha que a paisagem fantástica foi apreciada
em todos os detalhes, almoço farto ( me dói só de lembrar) com direito a uma
pequena pausa de descanso.
Bom, e agora? Chegamos um dia antes do que havia programado
com o resgate e o celular até o momento eu não tinha idéia onde havia colocado
no meio da bagunça que era minha mochila, mas tchrammmm, estava bem ali, na
cabeça da mochila, cara organizado é outra coisa, liguei e nada de
sinal.....mais um pouquinho e deu, consegui falar com sinal entrecortado que havíamos
chegado antes e se poderíamos ser resgatados dali um hora mais ou menos, com a
resposta positiva, nos colocamos em marcha novamente, eu mesmo quando vai
chegando numa finaleira dessas, me dá uma coisa nos pés que me deixa sem noção
de dor, andei voando pela estrada escorregadia e cheia de pedregulhos, tormento
para o Mario, mais uma prova de resistência para o Fernando e a Terezinha,
Evaldo na dianteira como sempre, puxando a fila, eu o Chico juntos, ao longe
dava para escutar o transito na estrada, depois de meia hora de descida
encontramos uma bica, onde foi possível matar a sede Arábica que estava
passando e também dar um tempo para esperar Terezinha, Fernando e Mário.
Na chegada ao asfalto a constatação que o veiculo, não era o
esperado e que poderia levar somente 4 e as mochilas dos mesmos, solução em
conjunto era que dois ficassem no aguardo do retorno do Carro do Mario que
ainda seria resgatado no inicio da trilha, Chico e Evaldo ficaram aguardando,
enquanto Mário que estava com os pé visivelmente machucados pela longa trilha e
pelo final na estrada, iria aguardar no hotel junto Terezinha e Fernando, no
meio do caminho o lobby do Mario fez com que um outro veiculo fosse contratado
agilizando a logística, sendo que meu retorno com o carro do Mário foi quase ao
mesmo tempo que a chegada do Chico e Evaldo no segundo veiculo do resgate.
Todo mundo feliz, zarpei imediatamente para a rodoviária
para tentar pegar o primeiro Bus para São Paulo, porém a empresa só tinha o
primeiro horário para 01:00, decidi ficar e esperar, pois sempre tem surpresas,
Chico voltou ao hotel para tomar banho, jantar e retornou para esperar.
Triste foi a situação dos demais passageiros que tiveram que
viajar ao lado de um cara que tomou o ultimo banho a 3 dias, mas isso é uma
outra história, chegada em São Paulo lava a alma e outra cositas más, bom café,
boa sala de espera e um bus executivo, tudo o que precisava para ser feliz,
agora só passar o tempo descansando até Floripa, com chegada prevista para a
noite.
Uma verdade, quando tudo parece dar errado, e acaba tudo
sincronizado, é por que o universo conspirou a
favor, Graças a Deus uma travessia considerada a mais difícil do País
acabou sendo a aventura Hard mais soft possível. Todos os integrantes estão de parabéns, mas em
especial para Terezinha Tessaro, a verdadeira guerreira e Fernando Faria, que mesmo estando
super cansado, não arregou nenhuma vez e com seus bastões de caminhada, cruzou
a serra, meu agradecimento especial ao Evaldo Baez e Chico Tessaro pela
parceria incondicional e ao Mário Firmino pela sua presença e logística rodoviária
que nos permitiu iniciar a trilha antes
do previsto. Não posso deixar de agradecer ao irmãos Amaro, Cristiano e Atla,
pelo trak log e relato fidedigno que
possibilitou o avanço sem erros e em tempo minimizado.